Sarajevo: 20 anos depois da guerra

Sarajevo

A primeira impressão que eu tive quando cheguei a Sarajevo não foi a melhor. Meu vôo vinha de Munique e pousaria na capital da Bósnia e Herzegovina por volta das e 3 horas da manhã, em um dia onde a temperatura girava em torno dos 5 graus abaixo de zero.

O aeroporto é bem pequeno e modesto e aquela hora não tinha nenhuma loja aberta, nem mesmo o balcão de informações, até o balcão da Lufthansa já estava fechado. Eu não tinha muito com o que me preocupar, em teoria, pois como foi uma viagem a convite do órgão de turismo da Bósnia, ficou combinado que um motorista me esperaria e me levaria até meu hotel. O problema é que esse motorista só foi aparecer no aeroporto mais de 1 hora depois do combinado e eu estava em uma situação desconfortável, alguns guardas me olhavam com olhar torto e nenhum falava inglês.

Poderia pegar um taxi? Talvez, se houvessem taxis às 4h da madrugada. Mas isso é assunto para um outro post.

O aeroporto fica nas cercanias da cidade e até o hotel foi uma viagem de uns 30 minutos, apesar de escuro, os caminhos são pouco iluminados e volta e meia conseguia ver algumas casas parcialmente destruídas. Claramente restos da guerra que devastou Sarajevo 20 anos atrás, a região do aeroporto foi uma das mais castigadas e desputadas durante os 3 anos de conflito. Mas eu estava tão cansado que só queria dormir antes de dar uma segunda chance para Sarajevo.

Quando o dia amanheceu eu pude ter de fato a minha primeira impressão da cidade. Sarajevo é cercada de montanhas cobertas de uma vegetação rica e densa, já com tons puxando para o amarelo do outono. A cidade é cortada no meio pelo Rio Miljacka. Não tem muitos prédios altos e mostra uma calmaria que não existia anos atrás.

Mas basta uma segunda olhada mais atenta para começar a ver marcas. Seria um buraco de bala naquela prédio branco à esquerda? E aí quando o olhar fica mais curioso, eu noto mais e mais marcas. Alguns edifícios são verdadeiras colchas de retalho.

Cena comum em Sarajevo: veículos antigos e marcas da guerra

Cena comum em Sarajevo: veículos antigos e marcas da guerra

Para nós, que não vivemos o horror de uma guerra, a imagem choca e abala o emocional. Parece que a cicatriz da guerra ainda está aberta e sangrando em Sarajevo. Mas apesar da imagem triste, o povo é feliz e recebe bem e isso ficou claro para mim já nas primeiras horas daquele dia. As pessoas são acolhedoras, e apesar da barreira idiomática, fica bem evidente que eles querem deixar o passado para trás e receber bem quem vem de fora.

Sarajevo ainda preserva muito de sua arquitetura original, baseada na herança turco-otomana de um lado e influência soviética do outro. Os carros são russos, mas também alemães e franceses. O povo em sua maioria fala russo e outros idiomas quase indecifráveis daquele canto do mundo.

Andando pelo centro da cidade velha, a parte mais turística, vi muitos turistas comprando artesanato turco e coisas de cobre no que a gente chamaria de camelôs. É uma espécie de turismo do pós-guerra, as pessoas ficam encantadas com os buracos de bala nas paredes das várias mesquitas, com os carros velhos e os ônibus dos anos 70.

Conversando com o motorista do órgão de turismo que me acompanhou na viagem, ele me explicou que Sarajevo dependeu muito da ajuda externa para se reerguer depois da guerra e que na verdade, ainda depende. A prioridade não era construir shoppings ou coisas do tipo, mas reconstruir escolas, hospitais, estradas e o aeroporto.

“As pessoas são livres, não ficam mais preocupadas com as sirenes de ataque que disparavam a qualquer momento e tínhamos que procurar por abrigo, não temos mais medo de ter um sniper escondido nas colinas, ou de uma granada ser jogada dentro do ônibus”.

Então, quando a gente entende que, estar vivo e livre é o melhor patrimônio que a gente pode ter, fica claro que aqueles buracos de bala nas paredes são apenas um detalhe estético, pequeno, perto de tudo que eles viveram.

Como disse o Bono do U2, no primeiro show de uma banda internacional em Sarajevo depois da guerra “Viva Sarajevo. Fuck the past, kiss the future” e parece que essa frase, dita em 1997, menos de 2 anos depois do fim da guerra, é o que tem guiado os bósnios daqui até os próximos 20 anos. Viva Sarajevo!


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Fabricio Moura

Meu nome é Fabricio, moro em São Paulo, sou designer e apaixonado pelo mundo. Descobri que viajar é se perder e se encontrar. Se conhecer melhor e se amar mais. Acumular histórias e experiências. Vamos?

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