Tijuana, México: onde o “muro de Trump” já existe desde 1989

Tijuana

Existem lugares no mundo em que eu nunca imaginei que colocaria os pés, um deles é Tijuana. A cidade mexicana é famosa por sua fronteira com os Estados Unidos, pelo muro que já existe há anos e por ser a porta de entrada para aqueles que buscam o tal “sonho americano”.

Talvez você tenha ouvido falar de Tijuana também por conta da violência, tráfico de drogas e prostituição. Comparada com outras cidades mexicanas, Tijuana não é uma cidade bonita, mas ao invés de ser vista como porta de entrada para os Estados Unidos, prefiro enxergar a cidade de outra forma. É lá que a América Latina começa e a porta de entrada para a Baja Califórnia e todos seus cenários incríveis.

A fronteira em Tijuana é considerada a mais movimentada do mundo

Eu passei 4 dias em Tijuana, tenho amigos lá e queria conhecer um pouco do modo de vida deles, como é essa vida na fronteira. Sem compromisso com turismo.

Tijuana é uma cidade em que o “muro de Trump” já existe, já separa amigos e isola a cidade de San Diego, no lado americano. A fronteira é movimentada, para atravessar demanda aproximadamente 3 horas e é preciso um visto específico. Só o visto que nós brasileiros temos não serve, é preciso um “permiso”, que vale por 6 meses e facilita um pouco as coisas. Mas meu objetivo não era atravessar.

Patriotismo com bandeiras gigantes

Alguns milhares de mexicanos atravessam todos os dias para trabalhar nos Estados Unidos, eles tem o permiso, mas não estão livres do calvário da longa e demorada travessia. Também não podem ir além de San Diego ou Los Angeles, essa é a condição.

A fronteira fica no centro de Tijuana, até o Aeroporto da cidade tem uma passarela que cruza o muro para quem pretende atravessar. O aeroporto é compartilhado, voar para Tijuana é mais barato se você está no México, do que voar para San Diego, ali do lado.

Tão perto e tão longe

A América Latina começa aqui

Mas se por um lado os mexicanos devidamente documentados enfrentam essa via crucis para cruzar a fronteira, os americanos entram como querem. Sem visto e sem dificuldades. Tijuana é o playground de San Diego, onde a bebida é barata, as drogas correm soltas, o jogo é permitido e as prostitutas ganham seus dólares.

O abismo criado por essa desigualdade de ir e vir me incomodou. Eu perguntei a um mexicano o que ele achava disso, a resposta foi breve: “sempre foi assim”. Eu fiquei processando e refletindo sobre esse conformismo, algo que eu não consigo diluir bem, quem dirá, digerir. O dinheiro que vem do outro lado da fronteira é importante, talvez isso explique para eles essa disparidade, mas não justifica para mim.

Tijuana é o playground de San Diego, onde a bebida é barata, as drogas correm soltas, o jogo é permitido e as prostitutas ganham seus dólares.

Tijuana não é uma cidade interessante, mas basta pegar a estrada rumo ao sul para descobrir belezas pouco exploradas, principalmente por nós, brasileiros. A Via Escenica que começa na cidade e segue para Ensenada e de lá até o extremo sul da península da Baja Califórnia é um exemplo. É onde o deserto árido se encontra com o mar, a estrada contorna as falésias salpicadas de praias desertas de um azul inigualável.

Mirante entre Tijuana e Ensenada

Baja Califórnia, onde o deserto mergulha no mar

Não dá para separar Tijuana e o muro, como um corte que rasga a cidade – e o país – e separa dois mundos. Universos que se unem uma vez por ano, quando a Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos abre um dos portões no centro de Tijuana por alguns minutos, para que poucas famílias selecionadas se encontrem.

O jornal The San Diego Union-Tribune acompanhou um desses momentos e eu reproduzo aqui a história de Perla Martinez. Ela, mexicana que vive nos Estados Unidos, aguardou por horas na grade para ter 3 minutos de contato com seus pais que vive em Tijuana. Foi a primeira vez que Maria Granadoz e Salvador Martinez Hernandez viram a neta de 3 anos.

“Já faz 16 anos desde que estivemos juntos, esta é a primeira vez que meus pais viram Samantha”

O muro que separa Perla de sua família existe de 1989, quando os Estados Unidos ergueram a assombrosa separação com metal vindo da Guerra do Golfo. São mais de 200 quilômetros de extensão que correm pelo deserto e avançam pelo mar. Ao todo, os Estados Unidos possuem mais de 1000 quilômetros de muros na fronteira, mas eles querem mais.

Perla Martinez (Créditos: The San Diego Union-Tribune)

A ideia de ampliar o muro foi uma das promessas de campanha do presidente Donald Trump, que vomitava na mídia que os mexicanos ainda pagariam pelos custos de construção. A coisa deu sinais de que estava esfriando, até que no final de setembro, começaram a ser montados protótipos do muro a leste de Tijuana.

Na Cidade do México eu visitei o Museu Memória e Tolerância, um lugar que trata de crimes de ódio que assombraram a humanidade. Ali está bem reproduzido o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial e vários outros conflitos. No fim, a questão da tolerância e esse universo do muro de Tijuana é retratado.

Museu da Memória e Tolerância

Cercas de arame que separam pessoas, vídeos que são um lembrete constante do mundo em que vivemos e dos muros que nos dividem. O sonho americano que se torna um pesadelo e um lembrete “también de este lado hay sueños“, acredito que a tradução não seja necessária.

Se por um lado a obra de ampliação do novo muro parece que vai realmente acontecer, esse ano o portão de Tijuana não foi aberto, parece que o último fio de esperança realmente acabou.


Tijuana, México



Links:
Matéria completa no The San Diego Union-Tribune (em inglês)
Gráfico da Aljazeera que mostra onde o muro já existe (em inglês)
Museu Memória e Tolerância (em espanhol)


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Fabricio Moura

Meu nome é Fabricio, moro em São Paulo, sou designer e apaixonado pelo mundo. Descobri que viajar é se perder e se encontrar. Se conhecer melhor e se amar mais. Acumular histórias e experiências. Vamos?

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