Precisamos falar sobre o preconceito com brasileiros em Portugal

preconceito com brasileiros em Portugal

Eu comecei a escrever este post há exatamente 1 ano, quando eu estive em Lisboa em agosto de 2018. Desde então, volta e meia tenho me debruçado sobre este texto. Não é algo simples de escrever, é preciso ter responsabilidade com esse tipo de tema. A cada parágrafo ou testemunho, eu precisava respirar e refletir para ser justo e parcial.

Falar sobre o preconceito com brasileiros em Portugal é algo que eu gostaria de abordar aqui no blog há um bom tempo.  É um assunto necessário e importante que precisamos tratar. Esse post não é baseado apenas em experiências que eu vivi, mas principalmente por outros leitores do Vou na Janela.

Tudo começou quando eu chamei um carro pelo aplicativo do Uber para ir do hotel em Lisboa para o aeroporto. O carro chegou e a motorista me atendeu muito bem. Quando ela percebeu que eu era brasileiro, se sentiu à vontade para conversar. A motorista se chama Helena, uma carioca na faixa dos quarenta e que havia se mudado para Lisboa com o marido há cerca de 10 anos.

Na breve corrida até o aeroporto surgiu a questão do preconceito com brasileiros em Portugal. Ela compartilhou comigo as piores situações vividas. Por ser brasileira, mulher, carioca e estar dirigindo um Uber. Na visão dos portugueses que cruzaram o caminho dela, Helena era uma intrusa que estava ali para tirar o trabalho de um português. Na visão de outras mulheres, ela estava ali para tirar o marido delas.

Helena diz que a sua vida só melhorou depois que ela cortou os  cabelos bem curtos e deixou a vaidade de lado. Nunca mais usou maquiagem para trabalhar e passou a vestir roupas que escondiam o seu corpo.

“Tive que fazer, para que me dessem paz. Uma vez eu peguei uma jornalista famosa de um canal de televisão aqui de Lisboa e quando ela percebeu que eu era brasileira começou a me insultar, dizendo que eu deveria ir embora.”

Aqueles vinte e poucos minutos de conversa foram densos, cheios de mágoas e ressentimentos e me despertou a necessidade de trazer esse assunto para o blog. Quem me acompanha, sabe que eu meio português e meio espanhol, mas acima de tudo, brasileiro. Sabe que eu amo Portugal, não só por conta das minhas raízes, mas por ser um lugar que sempre me acolheu muito bem. 

Mas existe sempre os dois lados da moeda, estar em outro país a turismo, colocando dinheiro naquela economia é diferente de viver lá e eu nunca morei em Portugal.

Depois dessa conversa eu fiz um post no Instagram abordando o assunto. Na publicação eu perguntei aos seguidores se eles já tinham sentido algum tipo de preconceito e eu recebi vários depoimentos. Apesar dos comentários serem públicos, aqui eu reproduzo alguns trechos, sem citar quem escreveu, para garantir um pouco de privacidade.

Portugal se tornou um dos destinos mais procurados por brasileiros no exterior. Seja pelo idioma, clima ameno e pela grande oferta de voos partindo do Brasil. São facilidades que seduzem especialmente para quem procura um destino para sua primeira viagem internacional. Quarto país mais visitado por brasileiros em 2017 – ficando atrás apenas dos Estados Unidos, Argentina e França – o país também é muito procurado por estudantes. 

Atualmente são mais de 14 mil estudantes brasileiros em Portugal, sendo aproximadamente 2.500 na famosa Universidade de Coimbra. E se existe preconceito com o visitante, no meio acadêmico não seria diferente. E toda a questão da xenofobia veio a tona em 2014 quando alguns alunos se juntaram para fazer uma campanha pelo Facebook expondo de forma anônima os comentários preconceituosos que recebiam.

A campanha ganhou atenção e foi reproduzida em diversos meios de imprensa, como vocês podem ver nessa matéria do Jornal O Globo.

preconceito com brasileiros em Portugal

Campanha pelo Facebook

E falando de situações de preconceito e inferiorização, tanto no meio acadêmico quanto na vida social, entre os comentários que eu recebi no post do Instagram, este abaixo chamou a minha atenção:

Moro e estudo em Portugal e é perceptível um preconceito velado, discreto. Seja na hora de arrendar um apartamento (precisei ouvir diversas recomendações que os portugueses ou demais europeus não ouviram, já que “o brasileiro é bagunceiro”, “gosta de farra”, “é desonesto”) ou mesmo na academia, onde nossas opiniões (nos trabalhos cotidianos mesmo), propostas e arguições são frequentemente desacreditados, já que “o brasileiro é menos inteligente”, “o Brasil é um país de educação inexistente” ou que “o brasileiro é intrometido e fala quando não é chamado”. Um leão por dia; nos resta trabalhar duas, dez, cem vezes mais pra provar que temos valor. Mas a gente nunca desiste.

E as dificuldades para quem está entrando no mercado de trabalho português, ou está procurando trabalho são ainda mais evidentes.

O preconceito existe sim, claro que existem casos e casos, mas existe, estou morando aqui faz 3 meses e trabalho em restaurante, foi o que consegui por ainda não ter permissão de residência, faço o meu trabalho da melhor maneira possível, claro, preciso dele para me regularizar, mas já aconteceram algumas situações de ser maltratada por clientes pelo fato de ser brasileira e eles não me entenderem, e pedirem para ser atendidos por outra pessoa que falasse um “melhor português”….sou formada em comunicação, e tenho certeza que meu português é bem entendível… fora alguns maus atendimentos em diversos serviços, claramente pelo fato de ser brasileira, pois o atendimento aos locais era claramente diferenciado, mas enfim, temos que provar mais uma vez ao mundo que não se pode generalizar um povo por conta de maus exemplos… viemos pra ficar e fazer a diferença! Com tudo isso declaro meu amor a esse país!

Algumas pessoas já sentem a diferença de tratamento já na chegada, durante os procedimentos de imigração no aeroporto.

Sim! Fui sozinha à Portugal e isso fez toda a diferença ( fiquei sabendo disso ao conversar com brasileiros que trabalham em uma Cafeteria, próxima ao local onde estava hospedada). Sofri discriminação já na chegada ao aeroporto, com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. A questão é puramente preconceituosa e para além de ter “boa formação, saber se articular e se impor”. Mulheres brasileiras, se quiserem viajar sozinhas à Portugal, podem esquecer a falácia “países irmãos”.

O que a leitora diz tem fundamento,  de acordo com pesquisadora Beatriz Padilla, publicado em uma ampla matéria da Gazeta do Povo,  “Há preconceitos contra brasileiros no geral, mas as brasileiras estão ainda mais expostas à discriminação”. 

E ela reforça que é verdadeira a visão de que os homens brasileiros são vistos como “malandros e preguiçosos” e as mulheres como “fáceis”. “Ou seja, é a velha história da brasileira como garota de programa. Afinal, Portugal é também um país muito machista.” 

Eu já estive em Portugal pelo menos uma dúzia de vezes e na minha primeira viagem eu tive uma entrada bem traumática, eu já contei essa história aqui em um dos primeiros posts do blog. Eu me senti mal, moralmente e fisicamente. Foi sem dúvidas a pior experiência que eu tive, não só em Portugal, mas em qualquer lugar do mundo.

Infelizmente quando falamos de preconceito, não ficamos restritos a um país ou outro. Vivemos em um crescente movimento de atos de intolerância e xenofobia em diversos cantos do mundo, uma onda perigosa de preconceito e discriminação. Seja contra latinos e muçulmanos nos Estados Unidos, imigrantes na Europa ou até mesmo aqui dentro de casa.


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Fabricio Moura

Meu nome é Fabricio, moro em Bangkok na Tailândia, sou designer e apaixonado pelo mundo. Descobri que viajar é se perder e se encontrar. Se conhecer melhor e se amar mais. Acumular histórias e experiências. Vamos?

1 Comentário

  • Responder agosto 10, 2019

    Paulo Sousa

    Texto certamente com um temática difícil, mas cabível e necessária. Eu nem tinha ideia que Portugal, com tantos laços com o Brasil, mantinha essa imagem do brasileiro. Isso porque sempre nutri na minha mente que os países mais “arianos”, como por exemplo, a Alemanha, um brasileiro teria dificuldades (sou negro e confesso meu receio de pisar em solo alemão, por motivos óbvios, né?). Mas creio que em cada nação deva haver certa dose de desconfiança com turistas. Uma vez vi em Búzios um cara admoestar alguns argentinos, achei aquilo extremamente grosseiro e desumano, afinal os portenhos estavam trabalhando num restaurante. Mas é claro que esse tipo de comportamento, em qualquer país, é execrável.

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